
Como começou o seu envolvimento com a área social?
Mãe. Eu me lembro que o telefone primeiro tocava lá em casa, e se fosse para a Pastoral da Criança a gente chamava a secretária. O escritório era só de apoio, pois o trabalho mesmo era feito nas comunidades.Muitas vezes, depois que voltávamos da escola, minha irmã caçula Silvia e eu ajudávamos no envio dos materiais educativos, preparando os pacotes e escrevendo os endereços, junto com uma prima que trabalhava em nossa casa. Eram apostilas escritas pela minha mãe e outros livros do Unicef e Ministério da Saúde, que serviam para os treinamentos. Também era costume enviar cartões de Natal para as pessoas envolvidas com o trabalho da Pastoral da Criança. Algumas primas escreviam os cartões, porque tinham uma caligrafia bonita, minha mãe assinava, e os primos colocavam no envelope, selavam e levavam as cartas no correio. Freqüentemente vinham profissionais do Unicef (Fundo das Nações Uniodas para a Infância), CNBB, Ministério da Saúde e outras instituições para reuniões na Pastoral da Criança. Era a hora guardar os brinquedos e jogos, e arrumar a bagunça, pois as reuniões eram na sala de jantar de nossa casa, e o almoço era servido lá também. A Pastoral da Criança funcionou nos fundos de casa até alcançar mais de 100 mil voluntários, em 1995. Depois ela tomou conta da casa inteira, até 1999. Foi um tempo muito gostoso. Era impossível imaginar naquela época a dimensão que a Pastoral da Criança tomou hoje em dia.Hoje a Pastoral, apesar da inspiração religiosa, não poderia ser considerada um movimento de promoção da cidadania e do protagonismo comunitário?Rogério Arns Neumann - Unir fé e vida é um dos lemas da Pastoral da Criança. Na adversidade social em que muitas comunidades se encontram, a fé é fundamental para animar a caminhada em busca do seu próprio desenvolvimento. Ela pode ser a esperança no deserto da vida. Tecnicamente, a Pastoral da Criança é uma organização de base comunitária, não uma instituição. Inclusive a Pastoral da Criança passou a existir legalmente apenas em dezembro de 1995, doze anos após o início de seu trabalho, e quando já tinha mais de 100 mil voluntários. Até então era a CNBB que dava a cobertura legal para os convênios.Sem as comunidades e suas lideranças, a Pastoral da Criança não existe. E é essa capacidade de moradores locais em se associar em torno de uma causa comum – a sobrevivência e o desenvolvimento infantil – que faz a Pastoral da Criança existir.
Em Curitiba, você acompanhou o Projeto Modelo Colaborativo, fruto de cooperação entre o Canadá e o Brasil na área social.Rogério Arns Neumann - A origem deste trabalho foi a percepção da Pastoral da Criança de que a eficácia de qualquer trabalho comunitário depende da eficiência das organizações dos três setores e de sua articulação. A orientação para o exame pré-natal, por exemplo, pode ser feito pelas líderes comunitárias da Pastoral da Criança junto às gestantes acompanhadas, no entanto é na unidade de saúde que ele efetivamente acontece. Da mesma forma, o soro caseiro, já comprovadamente eficiente no combate à diarréia, pode ser preparado pelas líderes e famílias, mas se a qualidade da água que as crianças tomam não é boa, não tem soro que resolva o problema em definitivo. Assim, ficou claro para nós a importância de se trabalhar para maior articulação das instituições públicas e privadas aumentando sua eficiência na promoção do desenvolvimento de comunidades.
Em 1999, com o apoio da Embaixada do Canadá em Brasília e da CIDA – Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional, a Coordenação Nacional da Pastoral da Criança procurou a Prefeitura Municipal de Curitiba para somar esforços e lições aprendidas em desenvolvimento comunitário. Para o desenvolvimento deste projeto-piloto foi escolhida uma região de Curitiba chamada Cajuru, que concentrava muitos desafios sociais.
Dar uma cesta básica ou um prato de comida é fácil, mas como fica o amanhã destas pessoas? Difícil é ter ações consistentes e institucionalmente articuladas, que fortaleçam a capacidade e a iniciativa de indivíduos e suas comunidades, quebrando o ciclo da pobreza. Porque não basta viver, é preciso ter vida em plenitude.
O Canadá, pelo que se diz, é o único país do mundo que inclui no recenseamento nacional perguntas relativas ao terceiro setor e ao voluntariado. O que têm revelado estes censos?Rogério Arns Neumann - O que existe é o Censo do Terceiro Setor, chamado NSGVP – National Survey on Giving Volunteering and Participation (Pesquisa Nacional sobre Doações, Voluntariado e Participação). O NSGVP já foi realizado duas vezes, em 1997 e 2000, sendo fruto da cooperação entre ministérios do Governo Federal do Canadá e várias instituições nacionais do Setor Voluntário. Os resultados estão no site http://www.nsgvp.org/. O último NSGVP revelou que o canadense está se voluntariando menos, porém dedicando mais horas. Outro dado relevante e que motivou muitas ações, é o potencial do jovem voluntário e a sua formação profissional. O voluntariado para o jovem não é visto apenas como uma doação pessoal, mas principalmente como uma busca pela vocação e formação profissional. O primeiro emprego é um dilema mundial e o voluntariado pode ser uma resposta na qualificação profissional, na ocupação do tempo ocioso (mantendo os jovens mais distantes de gangues e drogas), e no despertar de valores, como se doar para construir uma sociedade cada vez melhor. Vale a pena checar o site do Volunteer Canada , que no Brasil tem como equivalente o Instituto Brasil Voluntário – Faça Parte. O programa Volunteering Youth é uma das mais interessantes respostas ao desafio de estimular o jovem a se engajar socialmente, a partir da sala de aula.







